
Antes de existir o temido Lua Superior Três, havia apenas Hakuji, um garoto pobre condenado a enfrentar um destino que o mundo parecia escrever com crueldade desde o primeiro dia. Ele cresceu cuidando sozinho do pai doente, sem dinheiro, sem ajuda e sem futuro. Para comprar remédios, roubava — e por isso era espancado em praça pública todas as vezes que era pego. Mesmo assim continuava, porque era tudo o que podia fazer para manter o pai vivo. Mas quando seu pai descobriu a origem daqueles remédios, deixou uma carta dizendo que preferia morrer a ver o filho seguir um caminho criminoso — e tirou a própria vida. A partir desse momento, a infância de Hakuji acabou, e o mundo mostrou seu lado mais cruel.

Carregando culpa e desespero, Hakuji se afundou em brigas de rua, sempre lutando, sempre apanhando, sempre tentando aliviar a dor que ele não sabia como suportar. Foi assim que Keizo, o mestre de um dojo, ouviu falar dele: um garoto que nunca caía, mesmo enfrentando homens adultos. Impressionado com a resistência absurda de Hakuji, Keizo foi pessoalmente buscá-lo — não para puni-lo, mas porque viu nos olhos do garoto alguém que ainda podia ser salvo. Ele não viu um criminoso; viu um menino quebrado, alguém que só precisava que alguém acreditasse nele pela primeira vez.

No dojo de Keizo, Hakuji encontrou algo que nunca teve: propósito, disciplina e humanidade. Ele treinou duro, aprendeu a lutar de forma correta e deixou para trás as brigas sujas das ruas. E foi ali que conheceu Koyuki, a filha de Keizo, tão frágil e doente que mal podia sair do quarto. Hakuji a ajudava com os remédios, conversava com ela, fazia companhia — e aos poucos os dois criaram um laço tão puro que mudaria completamente quem ele era. Koyuki foi a primeira pessoa que fez Hakuji se sentir amado de verdade, e seu sorriso era o que fazia a vida finalmente parecer possível.

Keizo, orgulhoso da transformação de Hakuji, prometeu entregar o dojo a ele quando se casasse com Koyuki. Era o sonho que Hakuji nunca teve coragem de imaginar: uma família, uma casa, um futuro. Pela primeira vez, ele acreditou que podia ser feliz. Pela primeira vez, ele acreditou que podia ser humano de verdade.
Mas o destino não perdoa quem tenta se levantar.

Movidos por inveja e ressentimento, alunos de um dojo rival envenenaram o poço da casa. Keizo e Koyuki beberam a água contaminada e morreram juntos, no mesmo dia. Quando Hakuji voltou e encontrou os corpos das duas únicas pessoas que lhe deram amor e um lar, sua alma simplesmente se partiu — e desta vez, para sempre.

Tomado por uma dor indescritível, Hakuji marchou sozinho até o dojo rival e, como é fielmente mostrado no mangá, matou todos os 67 lutadores apenas com as próprias mãos. Não foi um massacre gratuito — foi o grito final de um garoto que perdeu tudo pela segunda vez e não tinha mais nada para segurar dentro de si além de dor.
Foi nesse estado, completamente despedaçado, que Muzan apareceu. Fascinado pela força absurda daquele humano quebrado, ofereceu-lhe poder, eternidade e força infinita. Hakuji, sem lar, sem amor, sem propósito e sem humanidade restante, aceitou. E nesse instante, o menino que queria proteger quem amava desapareceu — e nasceu Akaza, o demônio obcecado por força, porque recordar seu passado significaria encarar uma dor que poderia destruí-lo novamente.



No fim, Akaza nunca foi apenas um vilão.
Ele foi a vítima de um mundo que o esmagou até que não restasse mais nada além de sombras.
